Pai e Filho – Ponto Final

abril 18, 2011

Pai e Filho - Ponto Final

O filho chegou em casa de noite, cansado do fim de semana. O pai e a mãe estavam sentados na mesa da cozinha. Mesmo local da última discussão, há duas semanas. O filho deixou suas coisas no quarto e foi até a cozinha preparar seu prato para jantar. Enquanto o filho ia enchendo o prato de comida, o pai começou falar. Parecia que não havia ficado claro o desfecho da última discussão. E o pai já foi logo pegando no ponto fraco do filho.

O filho se sentou, envergonhado de estar comendo a comida que seus pais batalharam para colocar na mesa. Enquanto o pai falava, lembrou do pouco que havia feito para contribuir com qualquer coisa na casa. Tentou se lembrar das raras vezes em que realmente demonstrou gratidão por tudo o que seus pais lhe forneceram, pelo suor que tiveram para que ele pudesse estar ali sentado, comendo aquela comida, naquela mesa. Sentiu-se pequeno, minúsculo, insignificante, impotente.

Naquele ponto, o filho nem ouvia mais direito as palavras do pai. Já conhecia o discurso de cor e salteado. Sabia até em quais momentos o pai ia bater na mesa, aumentar o volume da voz, quais argumentos iria usar. E nas poucas vezes em que olhou para o pai, apenas balançou a cabeça em concordância. O pai tinha razão. O pai sempre tem razão. E sempre terá. Ponto final.


Pai e Filho – A Discussão

abril 6, 2011

Dessa vez, o filho tinha todas as armas prontas e carregadas. Estava convicto de que ganharia a discussão. Tomou coragem, respirou fundo e iniciou a conversa. O pai estava sentado, na mesa da cozinha, comendo um lanche antes de dormir. O filho esperou um pouco. Talvez o pai não tinha ouvido. “Ele ouviu sim. Tá fingindo que não ouviu.” Falou denovo. Desta vez com um tom de voz um pouco mais alto. O pai olhou pra ele e já deu aquela risada sarcástica, como se estivesse dizendo “tem certeza que você quer tocar nesse assunto?”. O filho insistiu. O pai mordeu a isca e o filho então falou todos seus argumentos. A cada vez que o pai interrompia, o filho falava um novo argumento. O pai não aceitava. O filho continuou. O tom de voz dos dois começou a aumentar. Já não era mais uma conversa. Era uma discussão. A mãe entrou na cozinha. Ficou quieta, apenas ouvindo. A mãe sempre foi a mediadora dessas discussões. Nunca tomou o lado de ninguém.

A discussão continuou. Agora, era o pai quem falava por mais tempo e o filho escutava. O pai, como sempre, se manteve surdo aos argumentos do filho. E o filho então começou a perceber o que o pai estava fazendo. O pai estava começando a mirar o ponto fraco do filho. Aquele ponto que, não importa qual for o assunto da discussão, ele sempre mira quando não está mais com saco de continuar a discussão. O pai aumentou a voz. Estava gritando. Batia forte na mesa. Mais gritos. A mãe se assustou.

O filho já estava calado. Seu coração estava batendo a mil por hora. Não chorou. “Na frente dele não. Espera mais um pouco e chora no quarto”, pensou. Já estava torcendo pra chegar logo o fim da conversa. Não aguentava mais. Começou a desejar nunca ter sequer iniciado a conversa. O pai foi abaixando o tom de voz. Já não batia mais na mesa. E o filho apenas balançava a cabeça em sinal de concordância às palavras do pai. O pai terminou de falar, se levantou e saiu da cozinha como se nada tivesse acontecido. O filho, derrotado, foi para o quarto e começou a chorar.

A Discussão